Cabeça sem cavaleiro
É muito fácil que deixemos a raiva ocupar o espaço que a insatisfação deixa.
E é muito difícil admitir que uma característica negativa tão estrutural nos force a reproduzir coisas tão sutil e progressivamente nocivas.
Você não sabe a falta que você me faz.
No momento que se aproximava sua partida eu já não conseguia mirar-te sem desmoronar. Depois vem aquela assimilação, quase como a incorporação de um diabo, irredutível, firme como a pior das ofensas, que sustenta a inevitável aceitação. Que te deixa ir, e também me leva de volta pra casa.
E quando chego, já não reconheço mais nada. Nem casa, nem a mim. Meu corpo me deprime. Sou inútil. Logo me vejo xingando o vento, a janela, minha comida e o espelho. Que porra é essa que eu tô sentindo? Cadê o que era meu? Será que estão me roubando? Sim, estão! E eu já os encontrei. Mas eu não posso prender esses ladrões dentro mim.

Ó céus! Me ajude a não perder a ternura durante minhas batalhas. Pois sei que minhas mãos foram feitas mais pra destruir que acariciar. Permita que este cadáver em decomposição ainda consiga cultivar os fluidos das palavras que o fizeram acreditar que ainda poderia haver algo vivo, e possa fazer florescer suspiros de alento e sorrisos de saudade, sem sofrimento. Que eu aprenda a não franzir a minha testa o tempo todo sem me deitar contra minha vontade ou me distrair.
Ó meu Amor, meu grande amor, quero poder errar com você. E que você não deixe de me amar por meus remendos, e me reconheça tanto na madrugada quanto na manhã. Que saiba me dissociar dos remédios tanto quanto das doenças. E não me deixe, nunca me deixe, ao mesmo tempo, errar, tanto, nem sem perceber, nem sem me sentir uma merda. Que eu possa acreditar em tudo que me diz sobre mim sem me iludir, e que sempre emerja das mais obscuras nuvens negras que possam pairar sobre as superfícies em que caminham nossas canelas, o reflexo do brilho mais brilhante de raio de sol. Da mais estrelada das estrelas, do azul mais azulado de céu aberto, límpido e promissor que possa um dia ter se mostrado em toda a eterna existência desse universo ordinário e minúsculo que é diante de tudo que sinto.
E é só, e tudo isso que peço. E quero também que todos os homens se curvem e se ajoelhem e peçam perdão por serem tão medíocres. E que eu possa continuar me maravilhando com tão pequenas aberturas de cor entre as nuvens que mancham o horizonte. Mas também não me contente com nada menos do que toda a bravura do mundo a encarar a pior das tempestades.
Você não sabe a falta que você me faz.