30/11/2022

Metros quadrados e outras coisas quadradas

    Dureza. Rigidez. As vezes me emputece a retilineidade da vida. Das coisas que a compõem. Acabaram-se meus remédios. E eu esqueci de providenciar isso. Prevenir a remediaçao. Ou a falta da remediação da remediação. "Que sei eu".

    Providência: "Presciência do futuro para acautelar-se com relação a ele; prudência". "Disposição prévia dos meios necessários para a consecução de um fim". Caiu. Aquilo que estava caindo. Pendente. Cedendo. Como já era previsto. Irremediavelmente. O tampo de baixo do armário do banheiro. Ter me atentado a isso parece que quase me livra de ter que fazer algo sobre. Acho que não vou mesmo. Portas, janelas e paredes, por onde sairá ou entrará qualquer coisa, ou não, é difícil saber. Antes de se deparar com elas. 

    Antes de me deparar com isso ou aquilo eu sempre tenho um plano, uma opinião, mas é improvável estar preparado pra tudo. Antes de chegar no mundo, onde será que eu tava? As vezes parece que sou muito primitivo, subdesenvolvido, ou burro, por não saber responder essa pergunta. Por onde será que foi que eu entrei? Ou será que eu saí? 

    De fato entrei. E também saí. E não foi por nenhuma porta, nem janela, nem parede. Mas parece que vim vindo, caindo aos poucos, cedendo, e caí, caindo, e nunca parei. Por vezes encontrei um chão. Ou uma porta, ou janela numa parede num chão. Um chão de sopros e bocejos. Devaneios. Anseios. Criaturas. Sombras de sonhos sonhados acordado. E, pois bem, até agora não sei onde tô querendo chegar. Desconheço pra onde é que tô indo.

    E agora? Acabou, caiu, e eu meio sem chão, aqui escrevendo como se eu tivesse uma desculpa pra não viver. Viver de fato, como quem faz alguma coisa além disso. Viver de fato? Que seria isso?

    Como sempre e mais uma vez eu nunca chego a uma conclusão. Talvez eu escreva como vivo e nasci. E talvez como faço tudo. Caindo. Sempre caindo. Cedendo. Entrando e saindo. E amo. Como já te disse, ó minha confidente fiel, eterna e fugaz, pois devo sempre considerar a queda e o encontro, a colisão, que não faço nada diferente de como amo. E ninguém nunca saberá me dizer se isso é bom ou ruim. 

    E por que será que tô preocupado?

    Obstinado. Adjetivo. "Que persiste; firme; pertinaz. Que não se deixa convencer; inflexível; irredutível".

   Obcecado. Adjetivo. "Que se obcecou; cego. Que está com a razão obscurecida".

    Ah, deixa pra lá. Vamos falar sobre outra coisa...


25/11/2022

Uma trave no meu olho  

    Não vejo futuro pra certas discussões. No fim cada um só quer estar certo e se sentir representado, ter uma justificativa para sua opinião, que por vezes apenas reflete seu egoísmo e sua perversidade reprimida. 

    Eu observo que o tampo de baixo do armário do banheiro esta caindo. Isso me preocupa. Eu não sei o que fazer. Cada dia que passa ele esta todo mais torto e sei que uma hora tudo irá cair. Eu queria impedir que isso acontecesse. Ao mesmo tempo tenho pensado que eu deveria apenas me calar frente a essas coisas e deixar que se resolvam sozinhas. Seja como for que isso aconteça. Embora  a minha vontade de reparo e manutenção seja grande, me vejo cada vez menos inclinado a dar conta de tudo que me incomoda. Queria só conseguir aceitar para me livrar do incomodo, e não que eu tivesse que resolver, reparar, consertar, remediar, remendar, me dedicar a tudo que vai ruindo rumo ao caos, a um fim trágico que revela a face da morte. A morte das coisas, das ideias, de memórias que imploram por serem criadas em um futuro perfeito. Ou quase perfeito. 

    Calar-se será sempre a melhor escolha. Por que eu só consigo lembrar disso depois? Como uma máquina programada para tentar mas não para acertar. Será que somos nós as verdadeiras inteligências artificiais? Perdidos no tempo, descontextualizados. Sem rumo, sem sentido nenhum. Sem olho, sem pai, nem mãe. Sem pátria. Já que pátria, do latim vem de pater, de pai, e nação de natus, nascido, e não sabemos mais se esta és pai ou mãe, nem de onde viemos, nem a oque pertencemos. E tampouco me interessa. 

    Nascido somos do mundo, do ovo, que termina e começa com a mesma letra, e divide-se e se liga apenas por uma. Ciclico e Irreconstituível. 

    Que venham até mim então todos aqueles que não odeiam, que não carregam sua cruz, e que não são dignos. Me deem uma oportunidade a mais de me calar. "Para que possa suspirar eternamente...".

    Me intriga a imagem religiosa. Me perturba a figura da criança. Me incomoda o comportamento dos homens. Me afronta a beleza da natureza. Me atrai a ideia dos anjos. Me irrita a contraditoriedade da vida. Me paralisa o peso da culpa. Me assombra a irremediabilidade do passado. Me entretém a insensatez das palavras.

19/11/2022

Sobre Horizontes e ruas sem saída

 As vezes, quando olhamos algo de longe, este parece ser muito mais bonito. 
 Então sentimos vontade de estar lá. De fazer parte daquilo. Com a pretensão de que aquilo também preencha algo em nós. E por muitas vezes, quando chegamos perto, nada acontece. Ou apenas não sentimos. Ou nada parece tão bonito. Pois não conseguimos aprisionar a beleza. Ela está no tempo. No momento.
 Então é preciso apreciar o caminho. Observar nossos passos, o que nos guia, nos leva. Talvez não como quem pensa muito antes de fazer, mas como quem pensa enquanto faz, o sobre o que esta fazendo. 
 E talvez, como quem continua, mesmo sem saber o que pensar.
 Eu já não sei se o que faz a gente chegar lá é acreditar ou duvidar. Não é possível! Não parece ter uma regra. Sinto que a vontade de tudo está ligada a uma necessidade de reprodução de si. De multiplicação, infestação. Quase como que querer ter o poder de um vírus, uma bactéria ou um fungo. De contaminar tudo. 
 Mas há quem acredite que acreditar é que nos faz vencer. Há quem duvide. Há quem vence acreditando, e há quem vence duvidando. No fim, quem duvida também acredita: na dúvida. E talvez este duvide disso. Mas, não tem fim, na verdade. Não tem fim.