06/03/2023

Silêncio quebrado. Cacos de vidro, passos e vultos


    A noite. Eu odeio a noite. De repente ela vem e escurece tudo, e eu sou obrigado a ascender as coisas. Me sinto dependente. Da luz. Do sol, da lâmpada, da eletricidade. Dos homens. Não sei o que fazer com o que vejo, quem dirá com o que não vejo.

    "Como eu me defendo desse sentimento de inadequação?". Que apesar de sanado pela história, pelo tempo e a tecnologia, fisicamente, ainda me parece uma ameaça. Tanto sei que pareço um monstro quanto qualquer pessoa caminhando na penumbra. Porém não acho que a maioria delas, que possam se encontrar nesse lugar, caminhando em minha direção, na penumbra, cultivem esse tal sentimento, muito menos escrevam sobre ele. E por isso, também, acho que a noite, essa mais uma imposição da natureza, absoluta e quase tiranica, só pode ser de bom proveito (pra quem gosta) porque existe a luz. E eu mais uma vez me vejo, como sempre, ou quase, predominantemente, sempre, nessa ambiguidade que parece reger tudo que existe nesse mundo. E até possivelmente o que não existe. Por quê? Não dá pra escolher nada assim.

    Mas eu prefiro o dia. Mas quem eu estou tentando enganar? Contra o que eu estou tentando lutar? Eu não sei. Eu tenho medo. Todo mundo tem medo. As vezes eu não consigo sair. Onde é que esta minha força? Por que eu perco ela tão fácil? Será que ela também não me trai? Assim, como quem esquece do que prometeu. Mas eu é que deveria ter controle sobre isso, não isso sobre mim. Pois é, mas não é assim. É uma doença, só pode ser uma doença. Esquizofrenia talvez.

    No canto do meu olho sempre quase vejo um movimento ou sombra que me faz visualizar coisas. Um cão me avançando, alguém me atacando, um carro, uma pedra, um galho. Minha mente é uma tela em branco, qualquer coisa risca e já a corrompe. Ou um quadro negro, o profundo suspense do cinema antes do filme começar, o escuro, e o vazio da tevê desligada. Onde se enxerga qualquer coisa por saber que pode não estar vendo o que esta lá. Mas eu deveria manter algum tipo de hábito que me deixasse sempre preparado e também quase que imune. Mas quanto mais eu aprimoro qualquer coisa mais dependente fico e menos tempo dura qualquer coisa. Como os últimos minutos de uma viagem infinita. O tempo me deixou mais vulnerável. Mais preocupado. E quanto mais eu me proponho enfrentar, me dispor ao desconhecido, mais temoroso eu me vejo. E de repente é como se eu estivesse a deriva em alto mar. Condenado.

    O que é um lar? Eu não aguento mais, eu só quero um lar. Eu preciso disso.

    Então me pergunto: por que será que agora eu quero coisas bonitas e radiantes? "Enquanto não possuía mais que minha cama e meus livros, fui feliz". Não, não fui. Eu era um maldito. Sujo. Mas sim, "agora possuo nove galinhas e um galo e minha alma esta perturbada". Eu nem tenho galinha nenhuma mas tô tentando ter. Isso já é o suficiente. Antes eu não queria. "Antes eu era um homem". Agora não sei. Acho que tô tentando ser minha própria galinha. Só pode ser uma doença.

    E o vento? Eu odeio o vento. O vento é ainda pior à noite. E eu também talvez seja. Pior à noite.