27/12/2023

 Hóspede de seu próprio lar

Apesar de tudo, me sinto muito sozinho. Apesar, eu quero dizer, de nunca ter sido abandonado. Talvez eu tenha sido, uma vez. Mas apesar de ter conquistado, não sei direito porquê, pessoas que estiveram sempre a meu lado, apesar de sempre ter com quem contar, não para andar com as minhas pernas, mas que seja para enviar uma mensagem, embora eu também as vezes sinta que não só eu caminho com minhas próprias pernas, penso nesse ato como revolucionário e burro, de me fechar nesses momentos para escrever coisas como estas, por não conseguir assimilar nada nem lidar com nada que acontece em meu entorno, completamente aterrorizado e ao mesmo tempo encantado com o quanto é linda essa tristeza que a vida me faz sentir. Será que todo mundo pode ver isso? Ou poderia? Será que estou enxergando bem? Pois apesar de tudo, e esse era o "tudo" do começo, eu não tenho motivo nenhum pra sentir nada do que eu sinto.

Reside em mim um adolescente, revolucionário e burro, em pânico e também friamente perverso, que, não sei direito desde quando, aprendeu a me usar para experiênciar coisa do tipo acordar e fingir que está morto.

"E se você estiver morto e na verdade não sabe? E se na verdade o tempo estiver parado, agora, enquanto pensa isso? E se você estiver vivendo a vida de outra pessoa? E se na verdade, nestes momentos em que se questiona é quando toma sua verdadeira consciência? Preso. Em um corpo que não é teu... Por que não chora agora? Mire o horizonte e perceba o quanto você não significa nada e desabe!"

E o pior de tudo, é que não importa pra onde eu vá, onde eu esteja, com quem, o que quer que eu pense, escreva, diga ou esteja fazendo, pra quem, sobre nada, eu nunca respondi nenhuma dessas perguntas. Eu nunca consegui chorar com a sinceridade de uma baleia. Quando criança era ainda pior. Eu nunca me senti nem sentirei parte de nada nem totalmente vivo. Nunca serei amado por você. Você entenda por qualquer um. Essa separação do outro pra mim não serve. Nunca serviu de nada. Sempre haverá um oceno entre nós que eu não queria que existisse. O mistério, a dúvida, a incerteza, de uma aventura excitante não me serve mais. Talvez nunca tenha servido. Eu quero pertencer. Me adote! Diria o cão se soubesse falar. Ou não. Mas por que todos sabem reconhecer um cão abandonado mas mal me olham nos olhos na rua. Tudo bem, nem todos. Mas todos de quem eu fico esperando uma mensagem de resposta, um ser humano que talvez soubesse ler o que tá escrito na minha cara, onde quer que eu esteja. 

Eu suspendo a nossa conexão como se ela pudesse pairar sobre qualquer situação. Como um diálogo em cima de imagens aleatórias, e logo me pego falando sozinho. Não há resposta. Foi-se o tempo. É puro romantismo. É ridículo manter isso. E dói também. É triste demais. As vezes parece até que eu tô forçando. Tudo é uma grande mentira, e apesar de tudo, eu sou o único que não consegue enganar nem a si próprio. Não há resposta. Não tem ninguém em casa.