Polícia do universo
Eu não sei do que eu tenho mais medo: se é de mim mesmo ou de você. Eu sei que tenho medo de não poder errar. Da fatalidade e da irreversibilidade. Sei que poucas vezes irão te medir numa balança bem equilibrada, ou numa que de fato o bem sobreponha o mal. Na prática todos se sentem no direito de te falar o que quiser só porque um dia te trataram bem, com educação, acolhimento, te receberam e não desconfiaram nem duvidaram de você ou te trataram como um ser desprezível que no fim é o que você, e eu, merecemos. Pois nenhuma virtude justifica nossa crueldade.
Somos todos uma ameaça. E a vingança é uma coisa terrivelmente amedrontadora. Quem é que nunca ficou preso na espera por uma punição, ou consequência de um erro? Sem saber se iria vir. Sem saber se foi mesmo um erro. Acredito se me disserem que algumas pessoas nunca, e talvez seja isso que me deixa assustado. As vezes sinto que vivo constantemente na espera de um castigo de um erro que eu nem mesmo cometi ainda. E eu me sinto sozinho. A solidão também outra coisa desesperadora. Quando as pessoas ao seu redor vão diminuindo, sua vida começa a seguir um rumo cada vez mais incerto, e você se vê cercado de estranhos, de egos muito delicados, cada um tentando se proteger a qualquer custo de qualquer coisa que possa atravessar seus passos como ofensa, questionamento, então todos são vingadores em potencial. Ninguém precisa ser provocado pra ser capaz de agredir alguém. As pessoas até se punem por si próprias, pois são as primeiras a admitir o mal que carregam. E ainda criamos um Deus, que tudo vê, e que sabe de todos nossos pensamentos maldosos.
As vezes nos colocamos também no lugar de Deus, eu sei. Provavelmente em momentos que nossa culpa decantou e nossos erros foram amenizados pelo tempo e nos sentimos no direito de corrigir alguém, oprimir e repreender. Nos alimentamos disso. Da energia do outro a quem não podemos nos comparar, pois em determinados contextos específicos assumimos que não seriamos capazes de cometer aquele erro. O nosso sim, mas nunca é a mesma coisa. De alguma forma isso também nos ofende. Nos comparamos uns com os outro o tempo todo em busca da dissociação, mas quando falhamos somos todos iguais. Poderia sempre ser qualquer um de nós. Eu ou você. Ele. Mas o altar ou o pódio que alcançamos quando arrecadamos horas, dias e meses de regras seguidas, sem um deslize, é um tesouro. E nós matamos por ele. Nossas posses abstratas: a ausência de uma acusação; o dízimo da moral; a aprovação; a posição de igualdade justa que o cumprimento de nossas tarefas diárias nos coloca dentro do jogo. Não há nada a ser questionado. Não há por quê se pensar na ordem que se estabelece quando estamos acertando mesmo que a relatividade desses acertos não faça sentido algum.
A nossa liberdade é apenas o intervalo de alegrias, tensões e expectativas entre uma decepção e outra. Estamos sempre presos, a precisar ganhar pra poder gastar, sentir, ir e vir. Por merecer ou não. A cumprir a pena. A eterna pena de ser livre apenas enquanto você não errar.