23/02/2023

Acasos

    Talvez tenha um preço. Talvez tudo tenha um preço. Talvez a liberdade realmente tenha um preço. É como se fosse inevitável que se atrele a liberdade a estar a mercê de mais possibilidades de acasos. Acasos? Por que eu olho a paisagem na estrada e ela parece um filme? As árvores no topo de uma colina, que pra mim parece enorme, talvez imensurável, aponta para o céu nublado, que mesmo se não estivesse, nublado, parece sempre anunciar algo. Por que pra mim parece que ser livre é experimentar maior variedade de acasos. Acasos? E o preço, as más experiências? Quase me esqueci de colocar o ponto de interrogação. 

    Que medo é esse que me prende? Uma raiva do que deu errado. Mais ainda para os outros do que pra mim. Um rancor das coisas serem assim. Assim como? Como são as coisas? Por que se tem que pagar por tudo? Quem foi que inventou essa palavra liberdade? De onde ela saiu? Isso não existe. Me sinto preso a ela. Sinto que todos estão. Não há o que fazer. E quem sou eu pra dizer o que devia ou não existir? Quem não devia existir sou eu. Que ao menos eu pudesse escolher. Escolher ser livre. Escolher não pagar por isso. Escolher mudar as coisas. Não ser só uma folha na enxurrada, na sarjeta. Não existir, ou só existir.

    Olho as estrelas. Fazia muito tempo que não as mirava. Quero chegar lá. É uma sensação, um suspiro. Sempre. Uma devoção. Um sentimento de distanciamento de algo que um dia, ou uma noite, fazia parte de mim, e eu do todo. Penso em você. E de repente tudo faz sentido. Você está do meu lado. Nada faz sentido.

Escrito em: 13/01/2023
Imagem: Xilogravura de Merien Rodrigues

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