Uma trave no meu olho
Não vejo futuro pra certas discussões. No fim cada um só quer estar certo e se sentir representado, ter uma justificativa para sua opinião, que por vezes apenas reflete seu egoísmo e sua perversidade reprimida.
Eu observo que o tampo de baixo do armário do banheiro esta caindo. Isso me preocupa. Eu não sei o que fazer. Cada dia que passa ele esta todo mais torto e sei que uma hora tudo irá cair. Eu queria impedir que isso acontecesse. Ao mesmo tempo tenho pensado que eu deveria apenas me calar frente a essas coisas e deixar que se resolvam sozinhas. Seja como for que isso aconteça. Embora a minha vontade de reparo e manutenção seja grande, me vejo cada vez menos inclinado a dar conta de tudo que me incomoda. Queria só conseguir aceitar para me livrar do incomodo, e não que eu tivesse que resolver, reparar, consertar, remediar, remendar, me dedicar a tudo que vai ruindo rumo ao caos, a um fim trágico que revela a face da morte. A morte das coisas, das ideias, de memórias que imploram por serem criadas em um futuro perfeito. Ou quase perfeito.
Nascido somos do mundo, do ovo, que termina e começa com a mesma letra, e divide-se e se liga apenas por uma. Ciclico e Irreconstituível.
Que venham até mim então todos aqueles que não odeiam, que não carregam sua cruz, e que não são dignos. Me deem uma oportunidade a mais de me calar. "Para que possa suspirar eternamente...".
Me intriga a imagem religiosa. Me perturba a figura da criança. Me incomoda o comportamento dos homens. Me afronta a beleza da natureza. Me atrai a ideia dos anjos. Me irrita a contraditoriedade da vida. Me paralisa o peso da culpa. Me assombra a irremediabilidade do passado. Me entretém a insensatez das palavras.

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