25/11/2022

Uma trave no meu olho  

    Não vejo futuro pra certas discussões. No fim cada um só quer estar certo e se sentir representado, ter uma justificativa para sua opinião, que por vezes apenas reflete seu egoísmo e sua perversidade reprimida. 

    Eu observo que o tampo de baixo do armário do banheiro esta caindo. Isso me preocupa. Eu não sei o que fazer. Cada dia que passa ele esta todo mais torto e sei que uma hora tudo irá cair. Eu queria impedir que isso acontecesse. Ao mesmo tempo tenho pensado que eu deveria apenas me calar frente a essas coisas e deixar que se resolvam sozinhas. Seja como for que isso aconteça. Embora  a minha vontade de reparo e manutenção seja grande, me vejo cada vez menos inclinado a dar conta de tudo que me incomoda. Queria só conseguir aceitar para me livrar do incomodo, e não que eu tivesse que resolver, reparar, consertar, remediar, remendar, me dedicar a tudo que vai ruindo rumo ao caos, a um fim trágico que revela a face da morte. A morte das coisas, das ideias, de memórias que imploram por serem criadas em um futuro perfeito. Ou quase perfeito. 

    Calar-se será sempre a melhor escolha. Por que eu só consigo lembrar disso depois? Como uma máquina programada para tentar mas não para acertar. Será que somos nós as verdadeiras inteligências artificiais? Perdidos no tempo, descontextualizados. Sem rumo, sem sentido nenhum. Sem olho, sem pai, nem mãe. Sem pátria. Já que pátria, do latim vem de pater, de pai, e nação de natus, nascido, e não sabemos mais se esta és pai ou mãe, nem de onde viemos, nem a oque pertencemos. E tampouco me interessa. 

    Nascido somos do mundo, do ovo, que termina e começa com a mesma letra, e divide-se e se liga apenas por uma. Ciclico e Irreconstituível. 

    Que venham até mim então todos aqueles que não odeiam, que não carregam sua cruz, e que não são dignos. Me deem uma oportunidade a mais de me calar. "Para que possa suspirar eternamente...".

    Me intriga a imagem religiosa. Me perturba a figura da criança. Me incomoda o comportamento dos homens. Me afronta a beleza da natureza. Me atrai a ideia dos anjos. Me irrita a contraditoriedade da vida. Me paralisa o peso da culpa. Me assombra a irremediabilidade do passado. Me entretém a insensatez das palavras.

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