Náufrago
Caminhava agora na areia da praia um marinheiro de mini lagoas. O que há muito tempo não fazia. Nem caminhar, muito menos na praia. Meio que estivera flutuando sobre pedras. Tampouco navegava. E também era agora menos marinheiro do que náufrago. Mas também nem tão só estava, caminhava ao lado de, quem sabe, talvez, fosse uma cigana. Não sei, não consegui pensar em outra coisa. Também não sei como continuar. A verdade é que o marinheiro, quero dizer, o náufrago, também não sabia como continuar. Assim como não sabia pra onde estava indo. Nem como tinha ido parar lá.
O marinheiro, aliás, o náufrago, e a cigana caminharam por muitas horas juntos pela praia. Parecia que não tinha um fim. E não tinha mesmo. Os dois pouco se conheciam, tinham apenas trocado cartas. Ele procurava ainda se encontrar, juntando outros desses como marinheiro, náufrago e sabe lá o que mais poderia ser. Quem sabe a cigana também fosse um deles, uma dessas partes. Embora, ela tenha dito que não poderia ajudá-lo a encontrar nada, apenas a perder-se.
O náufrago, não, o marinheiro, era bom em se encontrar mas não muito em se perder. Embora estivesse sempre perdido, e por isso era bom em se encontrar. Mas perder-se de verdade mesmo, como quem se deixa atingir por uma onda e toda sua força e desfruta com prazer de toda sensibilidade que sua existência proporciona, não. ele era pequeno demais pra isso e não conhecia lá ondas muito grandes. Agora, quanto ao náufrago, não se sabe dizer ainda. Pode se deduzir, por enquanto, que estava se esforçando. Já a cigana, era experiente. Não se sabe se era boa ou se gostava ou queria, pois algo em seu olhar denunciava um desejo de encontrar alguém ou alguma coisa que a fez chegar até ali. E acho agora que essa palavra "cigana" tem sido mal empregada. Talvez fosse mais como uma eremita ou andarilha. Talvez até um espirito, ou uma alucinação, uma alma penada. Um desdobramento da alma do marinheiro, quero dizer, do náufrago, ou dos dois, ou de outro alguém. Não sei, talvez fosse um anjo. Anjos não precisam morar em lugar nenhum.
Então, enquanto caminhavam pela praia já a algum tempo calados, a eremita, a cigana, ou melhor, o anjo, propôs ao marinheiro, ou náufrago, tanto faz agora:
- Escolha as conchas que achar mais belas em toda praia.
Ele respondeu questionando, como quem não quer sentir o sal da espuma das ondas que o mar o obriga a lamber:
- Onde é que isso vai me levar?
- Ao fim da praia. Ou até onde quiser ir.
Respondeu como uma criança que encontra mágica na obviedade a eremita, ou anjo, andarilha, sei lá...
Ele conscentiu apenas continuando a caminhar e executando a tarefa. Quase como quem cumpre uma pena. Pobre diabo, até a mim dá desgosto. Eu que sou o escritor, ou escrivão, que ainda não me apresentei. Narrador, criador, como quiser. Eu que criei esse puto.
Os dois caminharam (e eu com eles), provavelmente, até o próximo anoitecer. quando já não se enxergava cor de concha alguma. Então a diaba, ou anjo, eremita, andarilha, ou concha humana, disse que havia um restaurante, ou pequeno hotel, não sei ao certo, mas era na beira da praia. No final da praia. E que era de um conhecido e poderiam passar a noite lá. Claro que ele aceitou com aquele ar estúpido de quem nunca esta satisfeito com nada mas também não tem outra opção. Eu no lugar dela já o tinha mandado à merda. Nem pra marinheiro nem pra náufrago ele servia. E nem mesmo tão naufragado assim estava. A não ser emocionalmente. Aliás o chamei assim justamente pelo mesmo motivo que ele me irrita.
Enfim, quando chegou no lugar, que não havia ninguém, pois talvez além de outras coisas, a diaba, quero dizer, a guia, anjo, eremita, cigana, andarilha, era também muito criativa, ou até um pouco mentirosa pode se dizer. Mas nem tanto quanto o diabo, náufrago, marinheiro, chato, que mentia pra si mesmo. E iluminados por uma meia luz de um lugar que parecia estar todo apagado por dentro, ela então lhe disse:
- Quero que você escolha apenas uma das conchas que apanhou, e amanhã devolveremos todas as outras.
É claro que aceitou o desafio. E claro que também contrariado. Mas desta vez nem questionou. Era um idealista, um perfeccionista. Tinha selecionado as conchas com critérios muito materialistas, moralistas e puristas. Conchas perfeitas, inteiras, as mais limpas ou mais brilhantes. As mais delicadas, intactas ou uniformes. De repente percebeu o quanto todas eram ordinariamente especiais, únicas. Por mais que houvessem milhares das mesmas combinações de cores, ou uma mais branca que a outra, de um branco mais branco, mais homogêneo, absoluto, nenhuma era, nem pela distância de uma oceano, nem por um detalhe do tamanho de um pedaço de uma unha de gato, minimamente, igual. Pensou em todas as outras conchas que por ele poderiam estar esperando sem por ele ainda ter sido vista, ou que pudesse ter escapado de sua mira, ou pela qual ainda não tinha passado nem perto nessa e outras, muitas praias de todo o mundo. Mas escolheu, na verdade sem pensar muito, sem muita dúvida, por aquela com a qual mais se identificava. Não se sabe se ele sabia disso, mas escolheu aquela que representava muito do que queria pra si, em seu tamanho, cor e forma. Tudo muito equilibrado, sem muitas surpresas. nada extraordinário. escolheu aquela que parecia caber em seu mundo, e seu mundo nela. Nem grande nem pequena. uma única cor. Com suas poucas variações de tons e irregularidades cromáticas. Textura e forma de concha. simplesmente, uma concha qualquer. Aquela era a concha mais especial do mundo.
Depois de devolverem as outras conchas, a mulher, ou menina, aquele ser em sua forma meio feminina, angelical, por vezes fantasmagórica, outras vezes cintilante, simplesmente continuou a caminhar na beira da praia até desaparecer. Não se sabe se indo ou voltando. Caminhava lentamente, e sua imagem pareceu ter ficado horas sob a visão do pobre homem, moço ou ser sem forma muito específica. Mas quando desapareceu era como se tudo tivesse durado uma mexida de cabeça pro lado. Ele, o moço, pobre, diabo, náufrago, ex-marinheiro, não sabia direito o que fazer com o que estava sentindo. Nem sabia direito o que estava de fato sentindo. Não conseguiu pedir pra que ela ficasse. Não a chamou, nem foi atrás dela. E quanto mais longe sua imagem disforme e marrom ficava, mais um grito crescia dentro de seu peito. Que nunca saíra. E agora evaporava por sua respiração suspirante depois de ter certeza que ela já não o ouviria mais. Era como se tudo estivesse apenas passando perante seus olhos, sem que ninguém pudesse intervir. Era como se tudo tivesse que ser assim, como se já tivesse sido assim, e escrito.
Era agora um verdadeiro náufrago, a deriva em suas próprias lágrimas, que lhe diziam coisas tão ininteligíveis quanto o mar. Mas eram mais doce.