30/05/2026

Donne Nascoste


At some point, when i was here in the other side of the Atlantic, when the cold was still burning my 34 years old muscle mass underneath layers of clothes, when i had just arrive, like, yet arriving, after some months but still the first months, when the days got by as the autumn came, then the winter came but seemed never gone and some weeks seemed to be forever, when i was just attending the demands of the time, the schedule and the clock, but still not sure about what i was doing, not even a little, i felt very, very fragile. I felt very ugly, very weak, very old, very small, very dirty, very vulnerable, very sensitive, very emotive, too much. Very dumb, very slow, very tired.

Even then, when my wife and my dog came and i was with my family complete, i walked the streets with her and i was ashamed of being a man. In the narrows sidewalks of this medieval city, where you can not walk side by side, i always let her go forward. And as i looked at her from behind, i just seen my reflection. A reflection of a man that maybe did not want to be a man. That was so tired, so sick of being a man. A man that hated men. A man that did not feel part of nowhere, represented by nobody, no culture, no religion, no color, no image, no song, no saint, no god, no scent, no nothing. No shoes, no coat, no clothes, no food, no handwriting. Nothing. I didn't want to be the one to be followed, so i kept myself behind. But i felt guilty. As if i was a coward just using kindness as an excuse to hide my shame, my weakness, my look, my self, that i hated, and hated to hate. I doubted myself.

I wanted to be represented by that woman in front of me, but even then didn't want to overwhelm her, so i got into a war, between the salvation and the defeat of a world that i idealized, a perfect, not quite perfect, but very beautiful world, that i wanted to build up, but was so paralysed and incapable to even accept the way i put my feet one in front the other to barely walk back home from the supermarket. 

I am sorry. I feel much better now.

27/12/2023

 Hóspede de seu próprio lar

Apesar de tudo, me sinto muito sozinho. Apesar, eu quero dizer, de nunca ter sido abandonado. Talvez eu tenha sido, uma vez. Mas apesar de ter conquistado, não sei direito porquê, pessoas que estiveram sempre a meu lado, apesar de sempre ter com quem contar, não para andar com as minhas pernas, mas que seja para enviar uma mensagem, embora eu também as vezes sinta que não só eu caminho com minhas próprias pernas, penso nesse ato como revolucionário e burro, de me fechar nesses momentos para escrever coisas como estas, por não conseguir assimilar nada nem lidar com nada que acontece em meu entorno, completamente aterrorizado e ao mesmo tempo encantado com o quanto é linda essa tristeza que a vida me faz sentir. Será que todo mundo pode ver isso? Ou poderia? Será que estou enxergando bem? Pois apesar de tudo, e esse era o "tudo" do começo, eu não tenho motivo nenhum pra sentir nada do que eu sinto.

Reside em mim um adolescente, revolucionário e burro, em pânico e também friamente perverso, que, não sei direito desde quando, aprendeu a me usar para experiênciar coisa do tipo acordar e fingir que está morto.

"E se você estiver morto e na verdade não sabe? E se na verdade o tempo estiver parado, agora, enquanto pensa isso? E se você estiver vivendo a vida de outra pessoa? E se na verdade, nestes momentos em que se questiona é quando toma sua verdadeira consciência? Preso. Em um corpo que não é teu... Por que não chora agora? Mire o horizonte e perceba o quanto você não significa nada e desabe!"

E o pior de tudo, é que não importa pra onde eu vá, onde eu esteja, com quem, o que quer que eu pense, escreva, diga ou esteja fazendo, pra quem, sobre nada, eu nunca respondi nenhuma dessas perguntas. Eu nunca consegui chorar com a sinceridade de uma baleia. Quando criança era ainda pior. Eu nunca me senti nem sentirei parte de nada nem totalmente vivo. Nunca serei amado por você. Você entenda por qualquer um. Essa separação do outro pra mim não serve. Nunca serviu de nada. Sempre haverá um oceno entre nós que eu não queria que existisse. O mistério, a dúvida, a incerteza, de uma aventura excitante não me serve mais. Talvez nunca tenha servido. Eu quero pertencer. Me adote! Diria o cão se soubesse falar. Ou não. Mas por que todos sabem reconhecer um cão abandonado mas mal me olham nos olhos na rua. Tudo bem, nem todos. Mas todos de quem eu fico esperando uma mensagem de resposta, um ser humano que talvez soubesse ler o que tá escrito na minha cara, onde quer que eu esteja. 

Eu suspendo a nossa conexão como se ela pudesse pairar sobre qualquer situação. Como um diálogo em cima de imagens aleatórias, e logo me pego falando sozinho. Não há resposta. Foi-se o tempo. É puro romantismo. É ridículo manter isso. E dói também. É triste demais. As vezes parece até que eu tô forçando. Tudo é uma grande mentira, e apesar de tudo, eu sou o único que não consegue enganar nem a si próprio. Não há resposta. Não tem ninguém em casa.



12/09/2023

Polícia do universo

Eu não sei do que eu tenho mais medo: se é de mim mesmo ou de você. Eu sei que tenho medo de não poder errar. Da fatalidade e da irreversibilidade. Sei que poucas vezes irão te medir numa balança bem equilibrada, ou numa que de fato o bem sobreponha o mal. Na prática todos se sentem no direito de te falar o que quiser só porque um dia te trataram bem, com educação, acolhimento, te receberam e não desconfiaram nem duvidaram de você ou te trataram como um ser desprezível que no fim é o que você, e eu, merecemos. Pois nenhuma virtude justifica nossa crueldade.

 
Somos todos uma ameaça. E a vingança é uma coisa terrivelmente amedrontadora. Quem é que nunca ficou preso na espera por uma punição, ou consequência de um erro? Sem saber se iria vir. Sem saber se foi mesmo um erro. Acredito se me disserem que algumas pessoas nunca, e talvez seja isso que me deixa assustado. As vezes sinto que vivo constantemente na espera de um castigo de um erro que eu nem mesmo cometi ainda. E eu me sinto sozinho. A solidão também outra coisa desesperadora. Quando as pessoas ao seu redor vão diminuindo, sua vida começa a seguir um rumo cada vez mais incerto, e você se vê cercado de estranhos, de egos muito delicados, cada um tentando se proteger a qualquer custo de qualquer coisa que possa atravessar seus passos como ofensa, questionamento, então todos são vingadores em potencial. Ninguém precisa ser provocado pra ser capaz de agredir alguém. As pessoas até se punem por si próprias, pois são as primeiras a admitir o mal que carregam. E ainda criamos um Deus, que tudo vê, e que sabe de todos nossos pensamentos maldosos.

As vezes nos colocamos também no lugar de Deus, eu sei. Provavelmente em momentos que nossa culpa decantou e nossos erros foram amenizados pelo tempo e nos sentimos no direito de corrigir alguém, oprimir e repreender. Nos alimentamos disso. Da energia do outro a quem não podemos nos comparar, pois em determinados contextos específicos assumimos que não seriamos capazes de cometer aquele erro. O nosso sim, mas nunca é a mesma coisa. De alguma forma isso também nos ofende. Nos comparamos uns com os outro o tempo todo em busca da dissociação, mas quando falhamos somos todos iguais. Poderia sempre ser qualquer um de nós. Eu ou você. Ele. Mas o altar ou o pódio que alcançamos quando arrecadamos horas, dias e meses de regras seguidas, sem um deslize, é um tesouro. E nós matamos por ele. Nossas posses abstratas: a ausência de uma acusação; o dízimo da moral; a aprovação; a posição de igualdade justa que o cumprimento de nossas tarefas diárias nos coloca dentro do jogo. Não há nada a ser questionado. Não há por quê se pensar na ordem que se estabelece quando estamos acertando mesmo que a relatividade desses acertos não faça sentido algum.

A nossa liberdade é apenas o intervalo de alegrias, tensões e expectativas entre uma decepção e outra. Estamos sempre presos, a precisar ganhar pra poder gastar, sentir, ir e vir. Por merecer ou não. A cumprir a pena. A eterna pena de ser livre apenas enquanto você não errar.

06/03/2023

Silêncio quebrado. Cacos de vidro, passos e vultos


    A noite. Eu odeio a noite. De repente ela vem e escurece tudo, e eu sou obrigado a ascender as coisas. Me sinto dependente. Da luz. Do sol, da lâmpada, da eletricidade. Dos homens. Não sei o que fazer com o que vejo, quem dirá com o que não vejo.

    "Como eu me defendo desse sentimento de inadequação?". Que apesar de sanado pela história, pelo tempo e a tecnologia, fisicamente, ainda me parece uma ameaça. Tanto sei que pareço um monstro quanto qualquer pessoa caminhando na penumbra. Porém não acho que a maioria delas, que possam se encontrar nesse lugar, caminhando em minha direção, na penumbra, cultivem esse tal sentimento, muito menos escrevam sobre ele. E por isso, também, acho que a noite, essa mais uma imposição da natureza, absoluta e quase tiranica, só pode ser de bom proveito (pra quem gosta) porque existe a luz. E eu mais uma vez me vejo, como sempre, ou quase, predominantemente, sempre, nessa ambiguidade que parece reger tudo que existe nesse mundo. E até possivelmente o que não existe. Por quê? Não dá pra escolher nada assim.

    Mas eu prefiro o dia. Mas quem eu estou tentando enganar? Contra o que eu estou tentando lutar? Eu não sei. Eu tenho medo. Todo mundo tem medo. As vezes eu não consigo sair. Onde é que esta minha força? Por que eu perco ela tão fácil? Será que ela também não me trai? Assim, como quem esquece do que prometeu. Mas eu é que deveria ter controle sobre isso, não isso sobre mim. Pois é, mas não é assim. É uma doença, só pode ser uma doença. Esquizofrenia talvez.

    No canto do meu olho sempre quase vejo um movimento ou sombra que me faz visualizar coisas. Um cão me avançando, alguém me atacando, um carro, uma pedra, um galho. Minha mente é uma tela em branco, qualquer coisa risca e já a corrompe. Ou um quadro negro, o profundo suspense do cinema antes do filme começar, o escuro, e o vazio da tevê desligada. Onde se enxerga qualquer coisa por saber que pode não estar vendo o que esta lá. Mas eu deveria manter algum tipo de hábito que me deixasse sempre preparado e também quase que imune. Mas quanto mais eu aprimoro qualquer coisa mais dependente fico e menos tempo dura qualquer coisa. Como os últimos minutos de uma viagem infinita. O tempo me deixou mais vulnerável. Mais preocupado. E quanto mais eu me proponho enfrentar, me dispor ao desconhecido, mais temoroso eu me vejo. E de repente é como se eu estivesse a deriva em alto mar. Condenado.

    O que é um lar? Eu não aguento mais, eu só quero um lar. Eu preciso disso.

    Então me pergunto: por que será que agora eu quero coisas bonitas e radiantes? "Enquanto não possuía mais que minha cama e meus livros, fui feliz". Não, não fui. Eu era um maldito. Sujo. Mas sim, "agora possuo nove galinhas e um galo e minha alma esta perturbada". Eu nem tenho galinha nenhuma mas tô tentando ter. Isso já é o suficiente. Antes eu não queria. "Antes eu era um homem". Agora não sei. Acho que tô tentando ser minha própria galinha. Só pode ser uma doença.

    E o vento? Eu odeio o vento. O vento é ainda pior à noite. E eu também talvez seja. Pior à noite.

23/02/2023

Acasos

    Talvez tenha um preço. Talvez tudo tenha um preço. Talvez a liberdade realmente tenha um preço. É como se fosse inevitável que se atrele a liberdade a estar a mercê de mais possibilidades de acasos. Acasos? Por que eu olho a paisagem na estrada e ela parece um filme? As árvores no topo de uma colina, que pra mim parece enorme, talvez imensurável, aponta para o céu nublado, que mesmo se não estivesse, nublado, parece sempre anunciar algo. Por que pra mim parece que ser livre é experimentar maior variedade de acasos. Acasos? E o preço, as más experiências? Quase me esqueci de colocar o ponto de interrogação. 

    Que medo é esse que me prende? Uma raiva do que deu errado. Mais ainda para os outros do que pra mim. Um rancor das coisas serem assim. Assim como? Como são as coisas? Por que se tem que pagar por tudo? Quem foi que inventou essa palavra liberdade? De onde ela saiu? Isso não existe. Me sinto preso a ela. Sinto que todos estão. Não há o que fazer. E quem sou eu pra dizer o que devia ou não existir? Quem não devia existir sou eu. Que ao menos eu pudesse escolher. Escolher ser livre. Escolher não pagar por isso. Escolher mudar as coisas. Não ser só uma folha na enxurrada, na sarjeta. Não existir, ou só existir.

    Olho as estrelas. Fazia muito tempo que não as mirava. Quero chegar lá. É uma sensação, um suspiro. Sempre. Uma devoção. Um sentimento de distanciamento de algo que um dia, ou uma noite, fazia parte de mim, e eu do todo. Penso em você. E de repente tudo faz sentido. Você está do meu lado. Nada faz sentido.

Escrito em: 13/01/2023
Imagem: Xilogravura de Merien Rodrigues

21/02/2023

Náufrago

    Caminhava agora na areia da praia um marinheiro de mini lagoas. O que há muito tempo não fazia. Nem caminhar, muito menos na praia. Meio que estivera flutuando sobre pedras. Tampouco navegava. E também era agora menos marinheiro do que náufrago. Mas também nem tão só estava, caminhava ao lado de, quem sabe, talvez, fosse uma cigana. Não sei, não consegui pensar em outra coisa. Também não sei como continuar. A verdade é que o marinheiro, quero dizer, o náufrago, também não sabia como continuar. Assim como não sabia pra onde estava indo. Nem como tinha ido parar lá.

   O marinheiro, aliás, o náufrago, e a cigana caminharam por muitas horas juntos pela praia. Parecia que não tinha um fim. E não tinha mesmo. Os dois pouco se conheciam, tinham apenas trocado cartas. Ele procurava ainda se encontrar, juntando outros desses como marinheiro, náufrago e sabe lá o que mais poderia ser. Quem sabe a cigana também fosse um deles, uma dessas partes. Embora, ela tenha dito que não poderia ajudá-lo a encontrar nada, apenas a perder-se.

    O náufrago, não, o marinheiro, era bom em se encontrar mas não muito em se perder. Embora estivesse sempre perdido, e por isso era bom em se encontrar. Mas perder-se de verdade mesmo, como quem se deixa atingir por uma onda e toda sua força e desfruta com prazer de toda sensibilidade que sua existência proporciona, não. ele era pequeno demais pra isso e não conhecia lá ondas muito grandes. Agora, quanto ao náufrago, não se sabe dizer ainda. Pode se deduzir, por enquanto, que estava se esforçando. Já a cigana, era experiente. Não se sabe se era boa ou se gostava ou queria, pois algo em seu olhar denunciava um desejo de encontrar alguém ou alguma coisa que a fez chegar até ali. E acho agora que essa palavra "cigana" tem sido mal empregada. Talvez fosse mais como uma eremita ou andarilha. Talvez até um espirito, ou uma alucinação, uma alma penada. Um desdobramento da alma do marinheiro, quero dizer, do náufrago, ou dos dois, ou de outro alguém. Não sei, talvez fosse um anjo. Anjos não precisam morar em lugar nenhum. 

    Então, enquanto caminhavam pela praia já a algum tempo calados, a eremita, a cigana, ou melhor, o anjo, propôs ao marinheiro, ou náufrago, tanto faz agora: 

- Escolha as conchas que achar mais belas em toda praia.

    Ele respondeu questionando, como quem não quer sentir o sal da espuma das ondas que o mar o obriga a lamber:

- Onde é que isso vai me levar?

- Ao fim da praia. Ou até onde quiser ir.

    Respondeu como uma criança que encontra mágica na obviedade a eremita, ou anjo, andarilha, sei lá...

    Ele conscentiu apenas continuando a caminhar e executando a tarefa. Quase como quem cumpre uma pena. Pobre diabo, até a mim dá desgosto. Eu que sou o escritor, ou escrivão, que ainda não me apresentei. Narrador, criador, como quiser. Eu que criei esse puto.

    Os dois caminharam (e eu com eles), provavelmente, até o próximo anoitecer. quando já não se enxergava cor de concha alguma. Então a diaba, ou anjo, eremita, andarilha, ou concha humana, disse que havia um restaurante, ou pequeno hotel, não sei ao certo, mas era na beira da praia. No final da praia. E que era de um conhecido e poderiam passar a noite lá. Claro que ele aceitou com aquele ar estúpido de quem nunca esta satisfeito com nada mas também não tem outra opção. Eu no lugar dela já o tinha mandado à merda. Nem pra marinheiro nem pra náufrago ele servia. E nem mesmo tão naufragado assim estava. A não ser emocionalmente. Aliás o chamei assim justamente pelo mesmo motivo que ele me irrita. 

    Enfim, quando chegou no lugar, que não havia ninguém, pois talvez além de outras coisas, a diaba, quero dizer, a guia, anjo, eremita, cigana, andarilha, era também muito criativa, ou até um pouco mentirosa pode se dizer. Mas nem tanto quanto o diabo, náufrago, marinheiro, chato, que mentia pra si mesmo. E iluminados por uma meia luz de um lugar que parecia estar todo apagado por dentro, ela então lhe disse: 

- Quero que você escolha apenas uma das conchas que apanhou, e amanhã devolveremos todas as outras.

    É claro que aceitou o desafio. E claro que também contrariado. Mas desta vez nem questionou. Era um idealista, um perfeccionista. Tinha selecionado as conchas com critérios muito materialistas, moralistas e puristas. Conchas perfeitas, inteiras, as mais limpas ou mais brilhantes. As mais delicadas, intactas ou uniformes. De repente percebeu o quanto todas eram ordinariamente especiais, únicas. Por mais que houvessem milhares das mesmas combinações de cores, ou uma mais branca que a outra, de um branco mais branco, mais homogêneo, absoluto, nenhuma era, nem pela distância de uma oceano, nem por um detalhe do tamanho de um pedaço de uma unha de gato, minimamente, igual. Pensou em todas as outras conchas que por ele poderiam estar esperando sem por ele ainda ter sido vista, ou que pudesse ter escapado de sua mira, ou pela qual ainda não tinha passado nem perto nessa e outras, muitas praias de todo o mundo. Mas escolheu, na verdade sem pensar muito, sem muita dúvida, por aquela com a qual mais se identificava. Não se sabe se ele sabia disso, mas escolheu aquela que representava muito do que queria pra si, em seu tamanho, cor e forma. Tudo muito equilibrado, sem muitas surpresas. nada extraordinário. escolheu aquela que parecia caber em seu mundo, e seu mundo nela. Nem grande nem pequena. uma única cor. Com suas poucas variações de tons e irregularidades cromáticas. Textura e forma de concha. simplesmente, uma concha qualquer. Aquela era a concha mais especial do mundo.

    Depois de devolverem as outras conchas, a mulher, ou menina, aquele ser em sua forma meio feminina, angelical, por vezes fantasmagórica, outras vezes cintilante, simplesmente continuou a caminhar na beira da praia até desaparecer. Não se sabe se indo ou voltando. Caminhava lentamente, e sua imagem pareceu ter ficado horas sob a visão do pobre homem, moço ou ser sem forma muito específica. Mas quando desapareceu era como se tudo tivesse durado uma mexida de cabeça pro lado. Ele, o moço, pobre, diabo, náufrago, ex-marinheiro, não sabia direito o que fazer com o que estava sentindo. Nem sabia direito o que estava de fato sentindo. Não conseguiu pedir pra que ela ficasse. Não a chamou, nem foi atrás dela. E quanto mais longe sua imagem disforme e marrom ficava, mais um grito crescia dentro de seu peito. Que nunca saíra. E agora evaporava por sua respiração suspirante depois de ter certeza que ela já não o ouviria mais. Era como se tudo estivesse apenas passando perante seus olhos, sem que ninguém pudesse intervir. Era como se tudo tivesse que ser assim, como se já tivesse sido assim, e escrito. 

    Era agora um verdadeiro náufrago, a deriva em suas próprias lágrimas, que lhe diziam coisas tão ininteligíveis quanto o mar. Mas eram mais doce.

10/01/2023

 O despertar de um anjo terrível

    Passei muito tempo sem amar. Vivia sempre fazendo alguma coisa. Me ocupando. Várias coisas, cada minuto uma. Nunca terminava nada. Entre uma coisa e outra me apaixonava, sofria. Tava sempre sofrendo por alguma coisa talvez mas nem sempre por alguém. Mas amei pouco. 


    Uma vez, um humano me disse que eu falava como se o amor fosse um velho amigo meu. Que parecia que eu o conhecia muito bem. Um outro me disse que eu sempre fui muito obstinado em relação a tudo que fazia. Ironicamente, não sinto que nenhum deles tenha razão agora. Pois me perco facilmente, como um peixe que morde a mesma isca duas vezes. Já me disseram também que eu sou bom em várias coisas que eu sei que não sou. Já me disseram até que eu escrevo bem. 
    O que será que poderia manter a vela desse navio fantasma que é a vida sempre firme? Que pretensão querer saber.
    Claro que tenho sonhos. Mas cada dia e cada noite sucita um diferente. Nem sempre posso escolher. Normalmente penso que não se deve se contentar com sonhos, muito menos eleger nenhuma realidade com esse adjetivo, pois pode ser que a terra comece a rodar ao contrário e ficar todo o mundo tonto. Mas o pior mesmo é se só você ficar. Como é que você vai explicar isso? Depois vão querer te tirar o direito de sonhar. E é ai que eu me vejo num "mato sem cachorro", quanto mais eu nado mais me afogo. Eu precisava de serenidade pra fazer as coisas. Minha cabeça não para. Será que eu fiquei tonto?
    Enfim. Talvez eu tenha amado demais por muito tempo. Ou por pouquíssimo tempo. Muito rápido. E agora meu coração tem cem anos. Quando deveria ter menos. Muito menos. Eu deveria ter amado menos. Por mais tempo. Mas a impressão que eu tenho é essa, que passei muito tempo querendo. É como uma criança que se alguém lhe dá um tanto de bala ela come tudo de uma vez só. Ao invés de guardar, e ter balas por mais tempo. Meu coração é uma criança, uma criança de cem anos. Por outro lado é certo que não se deve deixar as coisas estragarem. Uma hora acaba. E ai você vai querer ter aproveitado mais. Mas cadê esse meio termo meu deus do céu?! Era só isso que eu queria, será que é pedir demais? É! É pedir demais. Sempre é pedir demais. Não dá pra fazer nada certo e ser bom ao mesmo tempo. Ou é certo ou é bom. Não dá pra ter meio termo e ainda fazer tudo também. Ou você é sensato ou você é bom, ou você faz alguma coisa certa. Ou você sonha. Ou você não sonha, e realiza(?). Ou você não ama, ou você ama e não faz nada certo nem nada de bom. Ah, vai saber. 
    Quem sabe um dia eu descubro...se eu continuar conseguindo acordar.